Vejamos alguns possíveis exemplos de textos incoerentes:
A. Tiago tinha estudado quando aparecemos, mas ainda estava estudando a matéria.
B. Pereira não foi trabalhar, contudo estava doente.
C. A pata está grávida.
Na frase (A), a incoerência é gerada pelo fato de o produtor da sequência apresentar o mesmo processo verbal em duas frases distintas de sua realização: como terminado e não terminado ao mesmo tempo, o que não é possível. Em (B), a relação de oposição apresentada pelo conector adversativo “contudo” produz incoerência pelo fato de a relação de causa ser a mais apropriada para o texto. Na frase (C), a incoerência se dá por conta da contrariedade do conhecimento geral, ou seja, no mundo real é impossível uma pata ficar grávida.
Dessa forma, é possível dizer que a definição de coerência dificilmente será definida apenas por um conceito, pois existem vários aspectos e/ou traços que, em seu conjunto, permitem perceber o que esse termo significa.
Já está claro que a coerência está diretamente ligada à possibilidade de estabelecer sentido para o texto, ou seja, ela é o que faz com que o texto tenha sentido para os usuários, devendo, portanto, ser entendida como um princípio de interpretabilidade. Logo, para haver coerência é preciso que haja possibilidade de estabelecer no texto alguma forma de unidade ou relação entre seus elementos.
CONHECIMENTO DE MUNDO
O nosso conhecimento de mundo, meu aluno, contribui bastante para a manifestação da coerência, pois ele desempenha um papel decisivo no estabelecimento do sentido dado ao texto. Se o texto tratar de coisas que absolutamente não conhecemos, será difícil calcularmos o seu sentido e ele nos parecerá destituído de coerência. É o que aconteceria a muitos de nós se nos deparássemos, por exemplo, com um tratado de física quântica.
O conhecimento de mundo também é chamado de conhecimento vivencial ou enciclopédico, pois o adquirimos à medida que vivemos, tendo contato com o mundo que nos cerca. Esse conhecimento passa a ser arquivado em blocos na nossa memória que se denominam modelos cognitivos. Existem diversos tipos de modelos cognitivos, entre os quais podemos citar:
Frames: conjuntos de conhecimentos armazenados na memória sob um certo “rótulo”, sem que haja qualquer ordenação entre eles.
Exemplo: Carnaval: escola de samba, fantasias, danças, blocos, trio elétrico, desfile, passistas, etc.
Esquemas:conjuntos de conhecimentos armazenados em sequência temporal ou causal.
Exemplo: Como preparar uma receita de bolo.
Scripts: conjuntos de conhecimentos sobre modos de agir altamente estereotipados em dada cultura, inclusive em termos de linguagem.
Exemplo: Rituais religiosos, casamentos, missas, praxes jurídicas, etc.
Planos: conjuntos de conhecimentos sobre como agir para atingir determinado objetivo.
Exemplo: Ganhar uma partida de xadrez.
INFERÊNCIAS
No processo interpretativo que permite a identificação da coerência, usamos o explícito textual (tudo aquilo que pode ser lido ou visto na superfície do texto) para alcançar o implícito textual. Ou seja, interpretar também é deduzir, depreender, inferir, pressupor, etc.
Meu aluno, em qualquer texto, seja ele verbal (presença de palavras), não-verbal (presença exclusiva de imagens), verbal e não-verbal simultaneamente, o explícito é o que pode ser lido e visto na superfície. O resto é implícito. Compreender um texto é usar o explícito para se chegar ao implícito. Isso significa realizar inferências, ler as entrelinhas, perceber subentendidos, considerar pressupostos.
Inferir é deduzir de forma plausível, o que não quer dizer que toda inferência seja garantia de verdade. Se, por exemplo, você vir, numa praia, num final de semana, um casal e uma criança, obviamente inferirá que se trata de uma família: pai, mãe e filho. No entanto, isso pode ser um equívoco.
Em nossa sociedade, partimos do pressuposto de que são namorados (ou cônjuges) qualquer casal (homem mais mulher) que vá a um cinema no sábado à noite. Nem sempre, é claro, isso é sinônimo de verdade.
Quase todos os textos que lemos ou ouvimos exigem que façamos uma série de inferências para podermos compreendê-los integralmente. Se assim não fosse, nossos textos deveriam ser excessivamente longos para poderem explicitar tudo o que queremos comunicar. Na verdade não é assim: todo texto se assemelha a um iceberg – o que fica à tona, isto é, o que é visível no texto, é apenas uma pequena parte daquilo que fica submerso, ou seja, subentendido. Compete, portanto, ao receptor ser capaz de atingir os diversos níveis de implícito, se quiser alcançar uma compreensão mais profunda do texto que ouve ou lê. Vejamos algumas inferências realizadas:
Na frase “A discussão sobre a reforma eleitoral avança com a criação de comissões no Congresso.” (César Maia), existem algumas informações explícitas.
1 – Há uma discussão sobre a reforma eleitoral.
2 – Foram criadas comissões no Congresso.
Por outro lado, há algo que não está escrito, mas que se pode depreender: Antes da criação das comissões no Congresso, a discussão sobre a reforma eleitoral encontrava-se estagnada.
Façamos a leitura da seguinte frase:
“Todos concordam que o atual sistema eleitoral brasileiro é muito ruim, pois, na prática, o eleito se acha independente do eleitor e de seu partido.” (Cesar Maia)
Informações explícitas
1 – Há unanimidade (Todos concordam) quanto ao fato de que o atual sistema eleitoral brasileiro é muito ruim.
2 – O eleito se considera independente do leitor e do seu partido.
3 – O motivo de o atual sistema eleitoral brasileiro ser muito ruim é o fato de o eleito se considerar independente do eleitor e de seu partido.
O Implícito
Como o eleito se considera independente do eleitor e de seu partido, pode agir em contrariedade aos interesses destes.
“Crescemos 7,5% em 2010 e a conquista de sediar a Copa do Mundo e a Olimpíada ajudou no reconhecimento do Brasil como um país de grande potencial.” (Charles Tang)
Informações explícitas
1 – O crescimento do Brasil em 2010 foi de 7,5%.
2 – O Brasil é um país com grande potencial.
3 – O fato de sediar a Copa de 2014 e as Olimpíadas de 2016 colaborou para que o Brasil fosse reconhecido como um país de grande potencial.
O implícito
Nem sempre o Brasil foi reconhecido como um país de grande potencial.
“Um ambicioso banqueiro de investimento que lucrou 590 mil libras em um negócio envolvendo uma informação secreta de fusão, que ele obteve no trabalho, foi sentenciado a mais de três anos de prisão, naquele que o juiz descreveu como sendo o “maior processo de ‘insider trading’ (negócio envolvendo informação privilegiada) já impetrado” no Reino Unido.” (Jane Croft)
Informações explícitas
1 – O lucro, por meio de uma informação secreta, de um ambicioso banqueiro de investimento foi de 590 mil libras.
2 – Um banqueiro de investimento obteve informação sigilosa no ambiente de trabalho.
3 – A sentença de um banqueiro de investimento foi superior a três anos.
O implícito
Houve processos menores envolvendo informação privilegiada no Reino Unido.
“Pelo menos duas pessoas morreram nesta sexta-feira (8) e cerca de 20 ficaram feridas após as forças de segurança iemenitas terem dispersado as pessoas que se manifestavam na localidade de Taez, sul de Sanaa, capital do Iêmen, segundo fontes do hospital Al Safwa dessa cidade.” (noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/efe/2011/04/08)
Informações explícitas
1 – Houve uma manifestação em Taez.
2 – Taez localiza-se ao sul de Sanaa, capital do Iêmen.
3 – Nessa manifestação, houve pelo menos duas mortes.
4 – As informações sobre mortes e feridos provieram de fontes do hospital Al Safwa.
5 – As forças de segurança iemenitas dispersaram as pessoas que se manifestavam em Taez.
O implícito
É possível que haja mais óbitos na manifestação ocorrida em Taez.
Toda ciência tem princípios, de que deriva o seu sistema. Um dos princípios da Economia Política é o trabalho livre. Ora, no Brasil domina o fato “impolítico e abominável” da escravidão. (Roberto Schwarz)
Informações explícitas
1 – O sistema de todas as ciências provém de seus princípios.
2 – O trabalho livre é um dos princípios da Economia Política.
3 – Ainda há o trabalho escravo no Brasil.
Implícitos
1 – Não é possível haver ciência sem princípios.
2 – Além do trabalho livre, a Economia Política possui outros princípios.
3 – O trabalho livre não é “impolítico e abominável”.
Parecia não ser possível, mas a qualidade da água do rio Tietê piorou ainda mais em 2006. Segundo a Cetesb (agência ambiental paulista), o rio apresentava situação praticamente estável nos últimos anos. (Afra Balazina e José Ernesto Credendio)
Informações explícitas
1 – Em 2006, a qualidade da água piorou em relação aos anos imediatamente anteriores.
2 – A análise da qualidade da água é realizada pela Cetesb.
3 – Nos anos anteriores a 2006, a qualidade da água do rio Tietê praticamente se manteve inalterada.
O implícito
Antes mesmo de 2006, a qualidade da água já não era boa.
Um estudo do Instituto Nacional do Câncer dos Estados Unidos divulgado nesta quinta-feira revela que a dependência de cafeína está mais vinculada ao fígado e à capacidade do órgão para processar a substância que ao efeito que o consumo da substância provoca no cérebro. (Fabiana Beltramin)
Informações explícitas
1 – A dependência de cafeína está relacionada ao fígado e ao cérebro.
2 – A cafeína é processada pelo fígado.
3 – O consumo da cafeína provoca algum efeito no cérebro.
Os implícitos
1 – Há pessoas que creem que a dependência à cafeína está mais relacionada ao efeito que o consumo da substância provoca no cérebro que propriamente ao fígado.
2 – Dificilmente o efeito que o consumo da cafeína provocaria no cérebro seria suficiente para gerar dependência.
Os problemas no trânsito de São Paulo causados pelo excesso de veículos são antigos. Diversas soluções vêm sendo apresentadas pela administração municipal durante os últimos anos. (Fernando Mendonça)
Informações explícitas
1 – Há excesso de veículos em São Paulo.
2 – O problema do trânsito em São Paulo já existe há bastante tempo.
3 – A administração municipal vem oferendo soluções para o problema do trânsito.
Os implícitos
1 – As soluções apresentadas pela administração municipal não lograram êxito.
2 – A administração municipal não tem sido eficaz na solução dos problemas relativos ao trânsito em São Paulo.
Brasília – Agência Estado – Vetada pela administração Lula, a destinação de 50% dos recursos do Fundo Social do pré-sal para a área de ensino pode ressuscitar na Câmara dos Deputados, sob a forma de emenda ao novo Plano Nacional de Educação (PNE). Entidades aguardam o retorno do PNE à pauta legislativa para pressionar as autoridades a aceitar as mais de 130 sugestões ao projeto de lei, como a elevação do investimento público em educação dos atuais 5% para 10% do Produto Interno Bruto (PIB) até 2020 – o Executivo prevê 7%. (noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/agencia/2011/04/10)
Informações explícitas
1 – A administração de Lula vetou a destinação de 50% dos recursos do Fundo do pré-sal para a educação.
2 – Há a possibilidade de destinação de 50% dos recursos do Fundo do pré-sal para a educação. (destaco o emprego da expressão POSSIBILIDADE em face de o autor ter redigido PODE em PODE RESSUSCITAR – sendo assim, evidencia-se o campo semântico da possibilidade e não da certeza. Se o comentário realizado fosse “Haverá a destinação de 50% dos recursos do Fundo do pré-sal para a educação.”, apresentaria uma informação falsa em relação ao texto.)
3 – Poderá (campo semântico da possibilidade) ocorrer uma emenda ao novo Plano Nacional de Educação, inserindo a destinação de recursos do Fundo do Pré-Sal para a área de ensino.
4 – As autoridades serão pressionadas a aceitar as mais de 130 sugestões ao projeto de lei.
5 – Haverá pressão sobre as autoridades para que aceitem a sugestão de elevação do Investimento público em educação dos atuais 5% para 10% do Produto Interno Bruto (PIB) até 2020.
Os implícitos
1 – A administração Lula pretendia destinar recursos do Pré-sal para outros fins, que não a educação.
2 – Para o Brasil se desenvolver, o investimento em educação é elemento crucial.
3 – Se não houver pressão de entidades, dificilmente as autoridades aceitarão as mais de 130 sugestões ao projeto de lei.
Cerca de 7.000 crianças e adolescentes que estavam em abrigos de todo o país foram devolvidos a suas famílias depois que uma força-tarefa de juízes da infância e juventude reviu os processos, em seis meses de trabalho. São casos de menores que sofreram negligência ou maus-tratos, por exemplo, mas que podiam ser criados por parentes próximos. Também há crianças cujos pais se restabeleceram e puderam receber os filhos de volta. (Elida Oliveira)
Informações explícitas
1 – A devolução das crianças às famílias decorreu em da revisão de processos.
2 – O trabalho realizado pela força-tarefa permitiu que aproximadamente 7000 crianças e adolescentes fossem devolvidos a suas famílias.
3 – Algumas crianças e alguns adolescentes estavam nos abrigos porque sofreram negligência ou maus-tratos.
4 – Há a possibilidade (campo semântico da possibilidade – no texto PODIAM ) de Parentes próximos aos menores serem incumbidos da criação de jovens e adolescentes.
O implícito
1 – Há um acúmulo de processos nas Varas da Infância e da Juventude.
2 – O fato de os pais terem cometido algum erro no passado não exclui a possibilidade de poderem criar seus filhos.